“Eu quero morrer aqui, dotôra”

 

“Eu quero morrer aqui, dotôra”

Daniel Dornelas

 

Um. Dois. Três. Quatro. Cinco… Mais um degrau. Outro. Escada estreita, sem corrimão. A equipe jovem chegou ao topo sem ar.

Dessa vez, o “ô de casa, bom dia!” foi seguido por uma pergunta: você me arruma um copo de água, por favor?

Se o desconforto de subir as escadas deixava a médica e os estagiários sem fôlego, imagine o sofrimento de Dona Ana*, uma mulher com mais de nove décadas de vida que não consegue andar.

A casa no alto do morro era simples e aconchegante. O cheiro de comida boa inundava o lar da bisavó quase centenária que estava sendo cuidada por suas filhas e netas.

– Ei, Dona Ana! Eu falei que iria embora, mas que voltava, né? Hoje eu trouxe companhia! – Disse a médica apontando para os quatro alunos vestidos de branco. – Como a senhora está?

– Eu tô bem, dotôra. Não sinto dor – respondeu a paciente com um sorriso no rosto.

– E está se alimentando bem?

– Ah, bem demais! – Considerando o cheiro do almoço que vinha da cozinha, a resposta fazia todo sentido. Sorrimos.

Dona Ana estava em um quarto claro, ao lado de uma janela. Na parede, um quadro com fotos 3×4 de cada um de seus familiares. Ao alcance de suas mãos, um pequeno sino que a família ofereceu para que ela chamasse caso precisasse de algo.

– Dona Ana, o que nós podemos fazer pela senhora hoje?

– Ô, dotôra – sorriu –, só me deixa quietinha aqui em casa.

A médica concordou com a cabeça, como se já previsse aquela resposta.

– Conta para os meninos como foi a última internação no hospital, Dona Ana.

A paciente direcionou o olhar para nós e disse de forma clara:

– Foi ruim demais. Ser furada o tempo inteiro, ficar longe das pessoas que eu amo. Eu quero morrer aqui, dotôra. No meu lugar, perto da minha família.

Aquela não era a primeira conversa de Dona Ana com a equipe sobre os cuidados que desejava receber durante a vida. O seu desejo era claro e precisava ser respeitado.

Após os exames físicos e orientações de rotina, fomos para a varanda da casa para conversar com a família.

– Entramos em contato com o especialista que atende a mãe de vocês. Considerando o quadro clínico e exames feitos anteriormente, é provável que ela tenha mieloma múltiplo, uma espécie de câncer que enfraquece os ossos. Por isso ela perdeu a capacidade de andar.

As quatro filhas se entreolharam.

– O especialista indicou um exame que pode ser feito em um hospital para confirmar o diagnóstico. A partir disso, seria possível prescrever alguns medicamentos que poderiam ajudar no controle da doença. No entanto, não há cura. Ela está tranquila, sem dor. O que vocês pensam a respeito?

– Nossa mãe disse que está certa de sua salvação quando partir. Ela não quer sair de casa, ser internada no hospital, nem passar por nada invasivo. Nós vamos respeitar, né?

A fala da mulher que estava sentada em um sofá de frente para a médica foi firme. As outras três irmãs presentes concordaram.

Naquele momento, a vontade de Dona Ana foi registrada no prontuário. Ela receberia cuidados paliativos até o momento de sua morte. Em casa, ao lado de quem realmente importa, no tempo certo, como deve ser.

Se a morte é a única certeza que a vida nos dá, é preciso naturalizar a finitude humana e atenuar o sofrimento. O cuidado vai além das paredes de um hospital. Melhor em casa.

 

*O nome e as características da personagem foram alterados para impedir a identificação do caso que inspirou a escrita dessa crônica.

Daniel Dornelas é acadêmico de Medicina do Centro Universitário de Caratinga. Acredita que os livros podem mudar o mundo, uma página de cada vez. Conheça seu trabalho e apoie: @lendocomdaniel – catarse.me/lendocomdaniel