Ele foi o responsável por introduzir a capoeira em Caratinga e também se notabilizou pela discotecagem, formando uma geração de DJs
CARATINGA – Ele nasceu em Valença (BA), mas adotou Caratinga, ou melhor, foi adotado pela ‘Cidade das Palmeiras’, lugar onde foi o responsável por introduzir a capoeira e também se notabilizou pela discotecagem, formando uma geração de DJs. Dirivaldo Gomes dos Santos, o ‘Baiano’, conversou com DIÁRIO e contou um pouco de vivência em Minas Gerais.
Com voz calma, Baiano não revela sua idade. “Eu vou contando minhas histórias e vocês tentam adivinhar a minha idade”, brinca. Logo em seguida diz que andou por alguns lugares antes de se fixar em Caratinga. E essa vinda teve um motivo. “Vim visitar o meu irmão Nailton Gomes (radialista já falecido e que também deixou seu nome na história de Caratinga). Gostei da cidade, das pessoas, do clima e resolvi morar aqui”, frisa.
Nessa entrevista ele destaca suas duas paixões: Capoeira e música. Ri de algumas situações e se emociona quando fala de seu legado. Baiano sabe que é importante para muitas pessoas e tem consciência de seus feitos na ‘Cidade das Palmeiras’.
Como se deu sua vinda para Caratinga?
Cheguei em Caratinga entre 1969 e 1970. Já tinha vindo antes umas duas vezes na cidade. Então resolvi vir em definitivo para cá. Na Bahia eu trabalhava como locutor de rádio e também sonoplasta. Eu tinha essas duas funções. Quando cheguei aqui, fiquei sem expectativa do que fazer. Então trabalhei de garçom, trouxe comigo um pouco da minha arte, que é a capoeira. Mas naquele momento eu vi que a cidade não tinha aquele ‘que’ para essa arte. Depois comecei a andar com o berimbau e as pessoas paravam, olhavam e perguntavam: ‘isso atira?’ (risos). Então eu respondia, ‘isso é para tocar’. A partir desse contato comecei a me sentir bem na comunidade e criei um vínculo com Caratinga.
O senhor já tinha demonstrando a capoeira. Como passou a dar aulas de capoeira?
Como eu passava pela rua com o berimbau, as pessoas sempre perguntavam e havia certo interesse. Eu falava o que era capoeira, mas só falava, nem tinha vídeo para mostrar. Eram outros tempos. Sem falar que a capoeira era um pouco fechada em 1970, pois só em 1974 que ela começou a se expandir. Sendo assim, apareceram alguns alunos e a gente foi indo. Dei aulas de capoeira no Sindicado, no Centro dos Estudantes e no CTC. Assim começou a prosperar a capoeira e o pessoal gostou. E muita gente hoje conhece hoje a capoeira no Caratinga através de mim, se bem que anteriormente outras pessoas já conheciam a Capoeira, tinham ouvido falar, mas as primeiras aulas foram realmente comigo. Depois de um tempo um ou outro começou a dar aula e assim a capoeira foi mais adiante.
Hoje quando o senhor passa e vê uma roda de capoeira em Caratinga, como se sente?
(Emocionado) Quando eu vejo me dá vontade de entrar na roda de Capoeira, fazer tudo de novo. Mas a gente vai chegando numa idade e tem que compreender que o mundo fica dentro da gente. Então, a gente observa e gente orgulho daquilo que a gente traçou, que deixou para outra geração.
E a capoeira, é uma arte marcial ou uma dança?
A capoeira sempre foi dança, nunca foi considerada uma arte marcial, mas hoje se coloca como uma arte marcial. A gente observa que até em grandes filmes a capoeira entra como arte marcial. Eu acredito que, provavelmente, daqui um tempo a capoeira vá se tornar até esporte olímpico, pois ganhou um grande mercado.
O senhor ainda trabalhou como DJ. Como nasceu essa paixão pela música, pelos toca-discos?
Quando morava na Bahia tive muitas profissões e quando tinha cerca de 12 anos de idade, um senhor chegou para mim e disse: ‘você vai aprender a trabalhar na locução’. Ele começou a me ensinar, colocava uma cadeira para alcançar o microfone. Assim foi minha entrada na radiofonia. Aí fui expandindo um pouquinho e comecei a conhecer os vários estilos de música. Claro que em casa já ouvia muita música. Então, dali para frente, que anos 60! (risos).
Quando ia fazer alguma discotecagem, como o senhor selecionava as músicas?
Eu procurava saber em qual ambiente iria tocar, que estilo o pessoal gostava, pois quase não toco o meu gosto, sou muito fã de rock, MPB. Também gosto do heavy metal. Nos anos 50 eu já ouvia muito rock. Para ser DJ a gente tem que gostar do xote ao xaxado. Toda música é importante, tem horas que eu ouço até Beethoven. Tem momentos determinados para determinadas músicas. Para sentir a música, basta sentir aquele momento que você está vivendo e o ambiente onde você está.
Onde o senhor discotecou em Caratinga?
Assim que passei a ser DJ, passei a mostrar o meu serviço. Mostrei para o Cornelius, um senhor que tinha o Danger Som. Como eu tinha um pouquinho de equipamento, misturava com o dele e a gente saía tocando para todo mundo. O Cornelius deu essa abertura para eu ser DJ. Depois, fui DJ para a boate Samantha Rios e assim prosperei. Também fui montador de som, operador de áudio. Então, eram três funções ao mesmo tempo.
Tem aquele momento angustiante para o DJ, que vira o ‘mar vermelho’, onde a pista abre e não fica ninguém. Como contornar essa situação?
Eu tocava de novo aquilo que eles já tinham dançado. E em determinados momentos temos que ser ecléticos, tocar da valsa ao merengue (risos).
Seu trabalho como DJ é muito reverenciado. É verdade que o pessoal da Furacão 2000 fez questão de lhe conhecer?
Sim. Em 1995 contratei componentes da Furacão 2000 que usaram os meus equipamentos, além de DJ eu fui dono de sonorização. Depois passou um tempo, ia muito no Rio de Janeiro comprar discos ou pedia para alguém da equipe ir comprar. A gente trazia muita coisa boa pra aqui, Então lá por 85 ou 86, Caratinga ouvia MPB ou discoteca do momento, música internacional mais para o lado de dance. Aqui não tinha o funk, aí abri uma casa, comecei a rodar músicas equivalentes as que rodavam nas boates, porém trabalhava mais com as pessoas mais humildes, pois elas gostavam do movimento e passei a introduzir alguns funks. Até que de um modo geral, as pessoas passavam lá e ouviam, gostaram e foi assim que cresceu um pouquinho do funk em Caratinga. Assim fomos até 1995, quando trouxe a Furacão 2000 aqui. E mais recentemente, o Rômulo Costa (fundador da Furacão 2000) esteve na Prime. Eu não sabia que ele vinha, sabia apenas da equipe da Furacão. Naquele dia estava perto de Bom Jesus do Galho, quando recebi um alerta dele no WhatsApp. Desde então temos mantido contato e quem sabe daqui uns meses a gente tem uma apresentação na Prime, um baile funk só com as músicas antigas.
O senhor deixou marca na capoeira em Caratinga, mas também influenciou pessoas que se tornaram DJs.
Realmente fiz uma escola, passei muitas madrugadas ensinando a discotecar, ensinava um, ensinava outro. Tomo como exemplo o DJ Ricardo, o grande nome de Caratinga hoje, não estou desfazendo dos outros que passaram por mim, o Maicon, o Marlon, Marcone, Alemão, Juninho, uma série de pessoas que a gente gosta. Tem o Joãozinho, a gente fazia baile em Caratinga. Falo ainda que além de grande DJs, tem grandes operadores de áudio, o Vampeta, o José Silvio. Tem o Clayton, uma infinidade. Peço desculpas se não citei alguém. Minha memória às vezes falha. Realmente foi uma escola passei o que sabia para os outros.
Qual a mensagem que o senhor deixa?
A gente vai chegando numa certa idade, a gente vai vivendo e me sinto orgulhoso, satisfeito, porém a gente sempre acha que poderia ter feito mais, mas se não fiz, vão me perdoar, porém me sinto orgulhoso do que eu fiz.

















