Epíteto: loucura

De fato, memórias são sempre memoráveis. Aqueles que as têm, têm sempre um lugar de retorno, um ponto de partida, um início. E, ainda assim, a memória é o mais infiel dos deuses: dá-se ao trabalho de guardar o que não pedimos e de apagar o que suplicamos conservar. Talvez por isso a loucura não seja uma anomalia, mas apenas a forma mais pura de lembrar ou de esquecer aquilo que não suporta o peso do real.

A loucura, epitetada de mil maneiras, é também um nome que se cola aos excessos do sentir. É o rastro do pensamento quando ele se perde de si mesmo, quando abandona a disciplina moral do cotidiano e resolve mirar, de frente, o abismo que o sustenta. Loucura é o instante em que a mente, cansada da razão, decide respirar fora do corpo e ouvir os ruídos que o silêncio esconde.

E se as memórias são retornos, a loucura é o desvio. Um caminho que não leva de volta, mas leva adiante, ainda que adiante não seja lugar nenhum. Porque, no fim, enlouquecer é apenas deslocar-se temporariamente da ordem dos fatos para habitar a ordem dos afetos. É viver num tempo oblíquo, onde passado e futuro se olham como dois desconhecidos num trem que parte para direção incerta.

A loucura tem cheiro, tem margem, tem contorno. Escorre pelos dedos como o resto do sonho que não se deixou sonhar. E quando emerge, brusca, ceifa também, tal qual o tempo, a pretensão de controle que o humano insiste em sustentar. É um fenômeno bonito e violento: a explosão mínima de uma verdade que não cabe na linguagem.

Epitetar a loucura é, por fim, uma tentativa humana de domesticá-la. Nominar o que não se deixa nomear. Dizer o indizível para fingir que se entende o que, no fundo, transborda. E eu, que a observo de dentro e de fora, penso se não seria ela o território mais honesto da existência, onde tudo que somos, memórias, falácias, retornos, fugas, se dissolve no instante exato em que tenta se fixar.

 

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