Caratinga – 172 anos

Caratinga comemora mais um aniversário. Sendo minha terra, é a mãe amorosa que aconchega tantos filhos, que à sombra benfazeja de seus braços, sempre abertos, sentem-se amados. Seja filhos legítimos, seja filhos de outras plagas que aqui vieram e, pelo seu jeito de receber, ficaram para ter a alegria de ser da terra e partilhar conosco as belezas e benefícios de ser caratinguenses.

A gente ama a terra com um apego visceral ao sangue, às entranhas gestantes, ao seio do alimento primeiro, à seiva da vida. Exemplo desse apego são os povos que preferem morrer no próprio solo estéril, a viver noutros solos mesmo férteis. Nada substitui a terra da gente, lugar onde nascemos ou vivemos os anos da vida. Quando estive fora daqui, escrevi: “Caratinga querida, ternura infinita, igual nunca vi. Só conhece a saudade que agora me invade, quem viveu longe de ti. “Só quem ama Caratinga e daqui se ausenta, sabe como dói a saudade.  Mesmo aqueles que tiveram de morar longe daqui, carregam a terra no coração, intocada, dando-lhes força e acenando-lhes como porto seguro, se precisarem de voltar. Ziraldo conta que ao sair de Caratinga, sentiu-se muito inseguro quanto à adaptação em outro lugar. Mas logo pensava: “Se eu não der certo por aqui, sei que posso voltar, pois tenho uma cidade que sempre me esperará. Tenho um porto para voltar.”

Amamos o espaço físico da terra com seus elementos dados por Deus ou construídos no dia a dia, na força do trabalho e dos ideais. A Itaúna, as palmeiras, a praça, a catedral, os jardins, as ruas, as casas. Tudo isso emoldura o cotidiano e se torna paisagem amada, repetida e gravada na retina e no sentimento. Ama-se a terra mais que tudo porque a alma dela é feita do povo que a constrói. É o povo, a gente que habita que faz a terra ser especial, pois a cidade tem o rosto e o jeito de seu povo.

Amo Caratinga por esse povo que luta, ri, brinca, chora, estreita laços, constrói, vive em paz debaixo do mesmo céu. Amo Caratinga porque aqui vivi uma infância feliz, mocidade de sonhos. Aqui passeei na praça fazendo o footing, assisti missas de Monsenhor Rocha e noites de rezas com barraquinhas e bingo com aquele grito de alegria: “Come Quinca, Madalena!” Aqui vivi o primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro filme no Cine Brasil. Casei-me na Catedral e tive os dois maiores presentes do mundo: meus filhos.  Aqui comecei minha vida com os livros e tive dos meus conterrâneos o maior apoio e carinho de que até hoje desfruto.

Sinto orgulho do progresso de minha terra. De seu alto conceito na Educação.  Faculdades, Centro Universitário, educandários que colocam Caratinga entre as grandes cidades de Minas Gerais pelo número de estudantes e escolas.

Como o povo é que significa o mais importante, proclamo louvores aos filhos da terra que tão bem sabem elevá-la aos píncaros das estrelas. Terra solidária que não sabe negar ajuda aos que precisam e sabe se unir como verdadeiros irmãos.

Impossível descrever tudo. Também não é justo evidenciar momentos meus que constituem, apenas, uma parcela dos momentos de todos. Mas sei que todos têm motivos imensos para amar Caratinga.

Escrevendo páginas gloriosas do passado e reinventando belezas no trabalho de todos os dias atuais, Caratinga completa 172 anos de vida. E permanece uma jovem mãe a acalantar todas as gerações. São 172 na conta do tempo, mas atemporal para cada filho de hoje, de ontem, de amanhã, porque, perene, ela refloresce em cada junho à sombra dos ipês floridos.

Depois de tantas dádivas, fico desejando retribuir com um presente grandioso, como Caratinga merece. Mas não tenho palavras que possam traduzir a gratidão imensa. Qualquer gesto ficará aquém do presente que meu coração deseja dar. Então, só resta o amor – o mais nobre e maior sentimento que se pode oferecer.  Ofereço o meu amor de sempre e a promessa de continuar trabalhando e lutando para que nossa cidade seja cada vez mais justa, mais humana, mais feliz.

Peço a Deus que dê forças a meu povo para que todos possam continuar fazendo de nossa cidade um recanto de progresso e de paz.  Que a felicidade aconteça para toda a minha gente, e que, todos felizes, possam exercer o amor, que é a única força capaz de construir o mundo.

Pego a rosa mais bela e radiosa e teço uma coroa e faço rainha a minha Caratinga. Soberana de sua existência, soberana de seus filhos que dedicam a vida em seu louvor.

Marilene Godinho