Barro Branco – meu cantinho de céu

O Barro Branco é o bairro em que vivo e passei a maior parte de minha vida. Amo esse cantinho como se fosse minha própria casa, pois minha história é passada ali com capítulos emocionantes, às vezes tristes, mas as alegrias foram mais fortes.

Ao olhar hoje o grande progresso de meu bairro, com lojas e prédios, volto o meu pensamento para antes, bem antes, quando tudo era tranquilo e os moradores eram vizinhos formando uma só família de convívio e amizade.

Com saudade, vou peregrinando pelos tempos idos e abraçando todos que são lembranças inapagáveis.

Olho o começo, a capela de São Sebastião. Monsenhor Rocha celebrava aos domingos a missa das oito. Lembro-me do Sr. Américo Teixeira rezando: “Para São Sebastião livrar nóis da peste, da fome e da guerra.”

Monsenhor Rocha construiu a atual que até hoje nos abriga, mas ele tinha vontade de construir um santuário onde é o CTC. Só não pôde porque o Sr. Wantuil Teixeira já tinha planos para a Praça de Esportes.

Sigo abaixo onde morava a família Schettine. Sr. Domingos e dona Francisquinha tinham uma padaria que nos atraía pelos deliciosos cajuzinhos e outras delícias.  Os filhos: Mário Schettine, que fazia parte de conjunto musical, Dominguinho, Carlos, Miguel, Filomena e Lilita. Todos criados saboreando macarronada e caçarola dos deuses.

Um pouco depois, vinham Dr. Bandeira e Dona Yvone. Casal amigo lá de casa.  Ele foi o primeiro oftalmologista de nossa terra e colocou a placa: “Olhos, ouvidos, nariz e garganta – Dr. Bandeira Cavalcanti.”  Dona Yvone, amiga de mamãe e de todos nós.  Inteligente e sensível, fundou o AA em nossa terra. Com ela tive aulas de francês que me fizeram tirar nota alta no colégio. Os filhos: Dr. Fernando, Dona Helena e Bandeirinha.

Logo depois vinha a “Casa Caratinga” do Sr. Nenzinho e dona Albertina. Eles foram meus padrinhos de casamento civil. São pais de José, Geral (Dadinho) e Jane. Os dois filhos são médicos e o Dadinho fez parte da equipe médica que fez o primeiro transplante de rim no Brasil. Jane é professora, casada com Ernane Graciano.  Um de seus filhos é o Dr. José Geraldo Graciano que exerce a medicina aqui entre nós, usufruindo de grande prestígio.

Depois vinha Casa Salomão. No alto de sua loja estava escrito: “Se a semente não nasceu, não foi Salomão que vendeu”. Bem humorado e amigo de vida inteira. No aniversário de meu irmão Cléber, ele usou a máquina antiga e escreveu todas as lembrancinhas que diziam: “Eu me chamo Cléber, quatro anos hoje faço, e daqui a mais um ano, venha dar-me outro abraço.” Casado com dona Edelvira, que com sua irmã Dagmar, fundaram o primeiro salão de beleza de Caratinga. Delvira, como a chamávamos carinhosamente, era uma pessoa de fina educação, bondosa e cheia de fé, não perdendo adoração no nosso Santuário.  São filhos desse casal: Solange (angiologista de renome internacional), Fatinha, Ana e Salomão Filho.

Descendo a rua, encontro o Sr.Lolô e dona Naninha. Pais de Zezé, Marilda, Mauro e Idalina.  Eles eram meus amigos de todos os dias, meus alunos na minha escola de brincadeira e artistas nos meus teatros de sonhos.

Ao lado, moravam o Sr. Wantuil Dutra e dona Jovina, dona Bizuca na intimidade. Os filhos: Maria José, José Maria, Dirceu, e Edson que era afilhado de meu pais.

Depois, vinha a loja do Sr. José Bomfim. Homem bondoso a quem devo a gentileza de não ter cobrado um cheque de meu marido em época de dificuldades. Dona Maria Pena e Magdá me escutavam cantar ao piano que eles tinham em casa.

Depois, salto para a casa do Professor Armando. Muitos filhos debaixo dos cuidados de dona Cininha. Ela nos contou certa vez, que gastava uma barra inteira de goiabada de sobremesa em uma só refeição, pois a meninada era numerosa. O filho Armando é médico, o Marcos é advogado e o Alexandre (o Dó) dirigia a Escola deixada pelo pai. Teve morte precoce deixando saudades. As filhas são todas educadas e alegres. Sou amiga e admiradora de Giselda, que gosta imensamente de tudo relacionado à nossa terra. Sobre a história do Barro Branco ela sabe nomes, datas e detalhes.

O Sr. Joesmar Guido e dona Maria eram os próximos moradores. Os filhos são: Neusa – juíza de direito aposentada – Soninha, Vânia e André.

Adiante vinha a casa Santa Catarina que vendia objetos religiosos. O Sr. José Braga e dona Inhazinha tiveram os filhos: Onofre, Ony e Onito. Este último era afilhado de meus pais e foi causa de um fato muito triste.  Acompanhou a família para descansar num recanto da Ponte Queimada. Nadando com o irmão, ele se afogou. Dona Inhazinha passou o dia e a noite à beira do rio esperando encontrarem o corpo do filho.  A tristeza tomou conta de todos do nosso bairro e da cidade.

Atravessando a rua, encontro com A Sentinela do Sr. Adair Spínola. Loja que vendia instrumentos musicais e, que hoje, tem estoque variado. Maria da Penha Spínola, morreu há pouco, e foi uma pessoa religiosa, caridosa e boa. Maria das Dores,foi minha colega desde o jardim da infância até ao final do curso normal. Com ela aprendi a andar de bicicleta. Hoje, o Levy toma conta de tudo e dos outros irmãos.  Figura ímpar no trato com todos e na honradez da vida pessoal.

Em seguida abraçamos com saudade dona Alice, que casada com o Sr. Claudiano Guimarães tiveram os filhos: Zezé, casado com minha irmã Maria Amélia, Zizi, Itamar, Murilo, Célio, Mariquita, Dilea e Dilneia.  Os rapazes foram grandes esportistas e promotores de torneios de basquete e vôlei aqui na santa terrinha.

Vem agora a Casa das Louças da família Braga. Faz parte dela o Sr. Tim Braga, esposo de dona Leonice Braga.

Lembro-me da Casa de Couros do Sr. Nancy Azevedo. Grande amigo de meu pai e gostava de bater um papinho comigo.

Agora vou ao encontro de Dona Constância, avó de Célia Aredes que hoje é casada com o Dr.Eure. Moça linda, sempre convidada para participar de concursos de beleza.  Acabou conquistando um festival e consagrou-se Miss da loja de tecidos Bangu.

Depois, uma família muito amiga. A família de José Paulo que também contava com Rubens, Geraldo, Hélio, Lôra (casada com o Sr. Juarez Canuto de Souza) Dircinha e Jovita.   Naquela época, Dircinha perdeu um filhinho, ainda bem pequeno, agarrado na grade do berço. Eu presenciei sua ida ao Dr. Grimaldo tendo nos braços o filhinho morto. Momento marcante e doloroso. E, por último, cito a Marisinha que vivia conosco lá em casa como se fosse nossa irmã.  Muito bonita, mas muito discreta, não gostava de fazer alarde de sua beleza e conquistas.

Logo perto, vivia o Sr. Geraldo Lomeu com a esposa Mariazinha. Muitos filhos: Nilson, Zezé, Mário, Gerson, Chiquinho, Elza, Aparecida, Elvira e Elzira. Esta última era afilhada de meus pais. Ao ser atropelada na calçada, sentiu dores, mas não procuraram médico. Ela morreu à noite causando grande consternação a todos os vizinhos.

Segue depois a família do Sr. Demócrito Cristóvão da Luz. Casado com Dona Mariinha Tavares, tiveram os filhos, entre eles estão Zizita, Zizi, Dilma e Selminha. Seguidores fortes da UDN, passavam longe de meu pai.

Descendo um pouco a rua, vem uma casa muito velha onde morava o Sr. Belegarde. Ele e meu tio Zitinho fundaram um conjunto musical chamado “Típica do Belegarde”. Eles alcançaram um sucesso estrondoso. Ouvir esse grupo era um deleite!

Depois vem a família do Sr Totoca e dona Avelina.  Dois filhos ainda são vizinhos até hoje: José Carlos e Jairo. Amigos que se preocupam com a gente quando a chuva fica forte e ameaça inundações.

A lado vinha o consultório do médico querido, caridoso e competente: Dr. Grimaldo Barros de Paula. Marcou época com sua atuação irretocável e grande apreço pela cidade.  Meus filhos nasceram em suas mãos. Candidatou-se a prefeito e, ao perder a eleição, mudou-se para Governador Valadares. Depois de muitos anos, morreu e, em sua missa de sétimo dia, postaram uma crônica minha sobre ele, no folheto da missa.

Depois, vem a minha casa. Com alpendre e tendo ao lado a Farmácia São José onde meu pai, Geraldo Godinho, exerceu a função de farmacêutico obtendo um grande número de clientes da cidade e dos distritos. Minha mãe, Didi Godinho, era muito religiosa, confeitava bolos lindos e era uma fada de bondade.  Os filhos: Maria Amélia, eu, Cléber, Maria do Carmo, Miraildes e Norma. Todos nós amamos o Barro Branco com a mesma intensidade de quem experimentou um pedacinho de céu.

Ao lado de minha casa, as vizinhas mais chegadas eram Elisa, Lindaura, Glicéria e Maria da família Costa.  Toda hora estávamos lá para bater papo e rir sem parar. Elas criaram uma sobrinha, muito querida nossa, que é a Joaninha, Joana D’arc Costa, advogada e mulher guerreira.

Logo depois dessa casa, convivemos com a família do Sr. José Gonçalves e dona Filhinha. Ela benzia mau olhado, espinhela caída e outros males como inveja e maldições. Uma grande amiga que me acompanhou durante a infância e mocidade com seu afeto. O filho Wilson Gonçalves, era tão meu amigo que colecionava retratos dos astros do cinema americano e me dava de presente um álbum lindo. Ele fazia faquinhas de metal e me presenteava.  Parece-me que ele foi o primeiro amor da minha infância.  Eu não entendia bem, mas gostava muito. Foi ele que construiu a Clínica onde o Cléber trabalhava, o IOBH.  Engenheiro de talento e de grande visão.

O Sr. Horácio Valentim morava ali também e tinha uma pensão onde, muitas vezes, se hospedavam clientes de meu pai. Religioso e homem de bem.

Também, havia a loja de tecidos do Sr. Dário Grossi. Muito amigo de meu pai, tinha em nós os fregueses mais assíduos.  A amizade foi crescendo e meus pais batizaram o Rinaldo, filho deles, e eles batizaram a Norma, minha irmã.   Até o Sr. Dário Grossi, grande ex-prefeito de Caratinga, começou sua vida profissional em nosso Barro Branco.

Termino com a Família do Sr. Aparício Costa e dona Isoralda. Os filhos Ronaldo, é ortopedista, o Dr. César Nicolau é cirurgião plástico. Nilza foi minha amiga de infância e a Gracinha é casada com o Fontainha.  Recordo da alegria de ir à porta deles no Sábado de Aleluia para ver queimar o Judas. Era uma farra de gritos e palmas!

Que meu Barro Branco continue sendo um lugar de prazer e beleza. Sem contar as enchentes, é um pedacinho de ternura e paz.

Passando a Pandemia, Giselda Arreguy e eu vamos organizar a festa do Barro Branco Ausente. Aguardem!

Marilene Godinho